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Um dos conceitos mais sutis, ao se falar de meditação, não está no que se faz, mas no que não se faz ao  meditar. Neste texto, falaremos sobre isso. 

Sempre que alguém se propõe a meditar, antes precisa aprender uma técnica. Em segundo lugar, precisa  praticá-la regularmente. Por um lado, essa disposição é necessária para que exista a prática regular. Por  outro lado, a firme intenção traz consigo duas desvantagens: pode motivar expectativas e pode originar  uma ação muito mais ativa do que passiva. Essa aparente contradição é uma das dúvidas mais freqüentes  daqueles que estão verdadeiramente dispostos a meditar com regularidade. Eles se perguntam: como posso  estar fortemente motivado se preciso estar passivo em relação ao método? De fato, parecem orientações  conflitantes. 

Vamos falar sobre este tema, pegando com exemplo uma técnica passiva concentrativa, com o corpo  parado e usando âncoras tais como a atenção na respiração ou a repetição de um som. 

Quando se fala em disposição para meditar, se está falando do ato de criar um hábito, de praticar  diariamente, de buscar local adequado, de procurar condições propícias, e assim por diante. No entanto,  essa firme intenção deve desaparecer quando se inicia a técnica meditativa. Em outras palavras, usa-se a  vontade ativa para ir meditar; utiliza-se a postura passiva para fazer a meditação. Isso porque a meditação  é um evento muito mais de entrega do que de conquista; muito mais de perder (condicionamentos,  pensamentos viciosos, etc.) do que de ganhar; muito mais de não-ser do que de ser. 

A expectativa é uma enorme barreira para o meditador, pois vislumbrar a perspectiva de algum efeito é um  evento que utiliza intensamente a lógica e a meditação é uma prática que, conforme já explicamos, requer o  chamado “relaxamento da lógica”. Por isso, ao meditar, nada devemos esperar; ao contrário, devemos nos  entregar à técnica de coração aberto e mente limpa. Fazer expectativas ao meditar seria como tomar um  banho de cachoeira querendo controlar a queda d’água, tentando comandar o volume que cai, a velocidade,  a direção da água, etc. Isso não é um relaxante banho de cachoeira; isso é um terrível sofrimento e uma  intensa utilização da lógica. Caso você não consiga viver sem expectativas, então crie uma que vá lhe  ajudar: estabeleça o desafio de conseguir meditar 80 dias seguidos, sem falta. 

Vários aprendizes entendem bem quando se explica o aspecto da expectativa. Porém, poucos conseguem  compreender o que chamamos de “postura passiva”, é isso é de fato algo que poucos instrutores sabem  explicar bem, pois é muito sutil. Quando falamos em estar na passividade, não estamos falando da técnica.  Como já dissemos várias vezes, é preciso exercer a técnica, é preciso manter a “âncora”, e isso exige nosso  foco nessa direção, o que não deixa de ser um evento ativo, embora mínimo. No começo mantemos  a atenção na âncora. Quando estamos mais experientes, mantemos apenas a intenção da âncora. Com o  tempo, resta apenas um fio de intenção. No entanto, mesmo que reste apenas um pequeno fio, ainda assim  será intenção, ainda assim será atividade. Contudo, a atividade mental na meditação pára exatamente por  aí. Nada mais deve ser ativo. O corpo deve estar passivo; a “alma” deve estar passiva; todo nosso ser deve  estar passivo. É um descanso de corpo, mente, alma, espírito, e tudo o mais com o que você puder usar  para se identificar. Afora a técnica que está em aplicação, nada mais trabalha, nada mais atua, nada mais se 

lembra, nada mais se espera, nada mais se faz, nada mais se é… Por isso é que algumas escolas identificam  a meditação como uma espécie de morte transitória; um momento no qual você deixa de existir através do  mergulho na técnica (leia nosso texto “Morte e Meditação”). 

Assim, quando meditar, use sua energia para praticar com regularidade. Utilize sua força para mergulhar  intensamente na técnica. E depois, apenas se entregue, e deixe que a técnica irá fazer – ou desfazer – o que  quer que seja em seu interior. Como já dissemos antes, para meditar, é preciso confiança, e isso é um fato,  pois para ser passivo é preciso confiar. Não há outra forma; não existe outra maneira de se meditar, a não  ser com confiança e entrega. 

Meditação é algo mais parecido com o deslizar em um escorregador do que com o escalar de uma  montanha. Só que esse é um “escorregador quântico”, que pode, quando menos se espera, propiciar saltos  de consciência que nenhuma escalada seria capaz de permitir. 

Medite, passivamente, sem passado, sem futuro, sem luta, sem controle, sem identificação. Medite até o  pleno vácuo, para apenas depois ser preenchido pelos maiores presentes que seríamos merecedores de  receber. 

by Roberto Cardoso

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