Meditação em gestantes: nosso Doutorado

Em maio de 2008, defendemos nossa tese de Doutorado, junto ao Departamento de Obstetrícia da UNIFESP, porém resultado de esforço conjunto com o Departamento de Psicobiologia da mesma escola. Hoje, falaremos um pouco sobre esse trabalho.

A tese teve duas partes. Na primeira, ela apresentou uma definição operacional de meditação, avaliando a reação da literatura. Verificamos uma ampla aceitação, inclusive com citações pelo NCCAM-NIH (National Center for Complementary and Alternative Medicine – National Institutes of Health) e pela AHRQ (Agency for Healthcare Research and Quality, além de monografias das Universidades de Loyola (EUA), da Flórida EUA) e Louis Pasteur (França), dentre várias outras citações. Segundo alguns, neste momento, esta parece ser a mais adequada definição operacional de meditação disponível na literatura. Não vou me alongar sobre a definição porque ela já foi explorada nesta coluna (vide artigo “O que é meditação”).

 

A segunda parte seria a mais interessante para nosso leitor. Nela, experimentamos esse modelo operacional de meditação em um pequeno grupo de grávidas, comparando-as a outro grupo composto por gestantes que não meditaram.

Recrutamos inicialmente um total de 189 grávidas, sem experiência prévia com meditação, às quais foram aplicados rigorosos critérios de exclusão. Por exemplo, qualquer alteração clínica (ex: aumento de pressão arterial) ou qualquer problema obstétrico (ex: pequeno sangramento ou contrações prematuras) eliminava a gestante do estudo. Diante disso, permaneceram 28 gestantes cujos dados foram utilizados na pesquisa.

Assim, o estudo avaliou os efeitos físicos e psíquicos da meditação em 13 gestantes que meditaram, comparando-as a outras 15 que não meditaram (total de 28 gestantes), no segundo e terceiro trimestres de gravidez. As não meditadoras tinham reunião semanal, com o mesmo instrutor, onde apenas se conversava sobre dúvidas comuns na gravidez. Para avaliar os efeitos psíquicos, usamos questionários específicos para medir níveis de ansiedade, depressão, bem-estar e tensão, aplicados em todas as participantes em três fases da pesquisa: antes de seu início, durante sua aplicação e ao final de 10 semanas. Da mesma forma foram avaliados parâmetros físicos que comprovassem o estado de relaxamento típico da meditação – como redução da tensão muscular (no músculo frontal), aumento da temperatura das extremidades (ponta dos dedos das mãos) e da resistência eletrodérmica (diminuição da condutância elétrica da pele), esta última capaz de revelar um estado de menor nível de tensão.

 

Em relação aos efeitos psíquicos, no final das 10 semanas, notamos diminuição do estado ansioso em todas as gestantes. Entretanto, a redução foi significantemente maior nas mulheres que praticaram meditação, com diminuição de 5,85 pontos em relação ao nível basal, contra 4,87 pontos reduzidos no grupo que não utilizou a prática. Também foi visto que todas as grávidas perderam pontos no escore de bem-estar à medida que se aproximava o parto; porém, a queda no nível de bem-estar foi significantemente menor no grupo que meditou.

 

Nos efeitos físicos, observamos que as gestantes que meditaram apresentaram redução na tensão muscular e na condutância elétrica da pele, com aumento significantemente maior da temperatura de extremidade corporal, caracterizando um estado que costuma ser chamado de “resposta de relaxamento”, classicamente atribuível à meditação. Nas medidas da tensão muscular, o grupo de grávidas que não meditou, mostrou uma curva inversa, com aumento significativo da tensão muscular à medida que se aproximava o parto.

Alguns estudos da literatura médica apontam que cerca de 20% das gestantes apresentam estado ansioso em algum momento da gestação. Costumamos dizer que, no fundo, a grávida é uma “ansiosa disfarçada”. Parece um ser cândido e tranqüilo, mas é uma pessoa que está acumulando ansiedade à medida que se aproxima o parto. Como a utilização de medicamentos é frequentemente desaconselhada nessa fase, a meditação acaba por se tornar uma opção terapêutica não medicamentosa para amenizar esse estado ansioso.

A gestante, do ponto de vista físico, é um ser especial, pois experimenta alterações notáveis na sua fisiologia e anatomia. Igualmente, do ponto de visto psíquico, a grávida também é especial, uma vez que vivencia um mundo emocional próprio típico da gravidez. Nós nos perguntávamos, então, se esse ser especial, tanto do ponto de vista físico quanto psíquico, responderia à meditação da mesma forma que as pessoas não grávidas. Teria a meditação efeitos psicofísicos registráveis também em gestantes?

Diante de nossos achados, parece que sim. Embora este estudo ainda não seja o definitivo, e se necessitem de outros para ampliar os números, nossos resultados são bem animadores.

Em breve, deveremos publicar o artigo completo em uma revista médica, dando continuidade a nossa linha de pesquisa.

Até nossa próxima conversa!

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