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Através dos anos, a meditação encontrou crescente espaço, bem além das correntes místico-filosóficas que a  utilizam. Hoje, a meditação já é algo estudado no meio acadêmico, é empregada no meio empresarial e é  discutida pela mídia. No entanto, vários mal-entendidos ainda persistem acerca deste método tão  contemporâneo quanto milenar. Nesta nossa conversa, falaremos sobre estes aspectos ainda confusos,  especialmente no seu terreno conceitual. 

Sem dúvida, a primeira confusão começa com o próprio termo: “meditação”. Sabemos que, apesar da  meditação não ser um apanágio de culturas orientais, foi principalmente através de correntes místico filosóficas advindas do oriente que tivemos contato com a meditação. Eu fico imaginando quando alguns  observadores viram, pela primeira vez, um budista ou um hindu meditando; quieto, imóvel, silencioso,  respirando lentamente. Eles certamente não conseguiam entender o que aquele sujeito estaria exatamente  fazendo. Não sabiam como descrever aquilo; não sabiam como explicar. Até que alguém talvez tenha dito:  “…Eu só fico desta maneira quando estou quietinho, refletindo longamente sobre alguma coisa; quando  estou meditando…”. Então, provavelmente daí surgiu a proposta do termo meditação, para designar  aquele método que, na verdade, era bem diferente de “refletir longamente sobre algo”. Escolhemos esse  termo para denominar algo para o qual ainda não existia uma expressão apropriada em nossa língua. O  termo meditação foi, apenas, o melhor que se pode arrumar. 

Todavia, àquela época, outros caminhos tortos ainda nos esperavam. Não apenas utilizamos o nome  “meditação” apenas por falta de algo melhor. Mais ainda, ao estabelecermos contato com tais correntes  místico-filosóficas, passamos a usar o termo “meditação” para um sem número de práticas que permeavam  aquelas tradições orientais. Por isso, hoje, ao ouvirmos o termo “meditação”, podemos estar tratando de  técnicas meditativas; mas também poderemos estar falando de vários outros métodos, que podem ser de  relaxamento, de concentração, de auto-hipnose, de oração, de respiração, de imaginação criativa, de transe  hipnótico ericksoniano, dentre outras modalidades. 

Não estou, aqui, afirmando, que a meditação é um bom procedimento, e que os demais são ineficazes. Não  se trata disso. São todos bons procedimentos, desde que bem indicados e bem utilizados; contudo, são métodos bem diferentes entre si. Eles têm diferentes efeitos e, consequentemente, diferentes indicações. Por  isso, para indicarmos o método adequado para o caso adequado, precisamos saber diferenciar essas  técnicas entre si. No caso específico deste texto, estamos tratando de meditação, e devemos saber como  diferenciá-la dos outros métodos de intervenção aqui citados; e existem claras diferenças conceituais e  operacionais. 

Por exemplo, nas técnicas de relaxamento, não se exige um artifício de auto-focalização. Nos exercícios de  respiração, tampouco. Nas técnicas de concentração, exige-se um foco, porém não se exige uma sutil  atenção simultânea para evitar o envolvimento nas seqüências de pensamento (vide artigo anterior em www.robertocardoso.net, intitulado “relaxamento da lógica”). Na auto-hipnose, não se exige o  “relaxamento da lógica”. Na imaginação criativa, igualmente, a lógica não é “relaxada”.

Recentemente (junho de 2007), a Agency for Healthcare Research and Quality (www.ahrq.gov), órgão  relacionado so U.S. Department of Health and Human Services, dos Estados Unidos, publicou seu  Evidence Report nº 155, envolvendo o tema: “Meditation Practices for Health: State of the Research”. Essa  publicação específica pode ser vista através do seguinte link: 

https://archive.ahrq.gov/clinic/tp/medittp.htm#Report 

Nessa revisão, os autores consideram, de forma enfática, que uma das maiores dificuldades para o estudo  da meditação reside na falta de definições operacionais precisas para o método. Sem definir  adequadamente o método, diferentes pesquisadores podem estar estudando diferentes métodos e, por isso,  definições que evitem mal-entendidos devem ser buscadas, para que a meditação possa ser avaliada como  instrumento de saúde. Devo dizer que esta também é a minha maior inquietude referente a este  procedimento que, embora milenar, ainda é tão pouco compreendido. Nesta mesma revisão, cita-se, como  o que talvez seja a melhor opção hoje disponível, a proposta do nosso grupo (Cardoso et al., 2004 – vide  nosso artigo intitulado “O que é meditação”). 

Entender o conceito de meditação constitui o primeiro passo para sua plena utilização em saúde. Dominar  seus aspectos operacionais é o passo seguinte. Vencidas essas barreiras, usufruir de seus benefícios será o  nosso prêmio; e tenho convicção de que seremos regiamente premiados. 

by Roberto Cardoso

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