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Nas últimas décadas, a meditação vem deixando de ser uma prática estritamente ligada a correntes místico filosóficas e, aos poucos, vem ganhando espaço também como método de apoio à saúde. Muitos estudos  vêm considerando o uso da meditação para distúrbios de ansiedade, doenças cardiovasculares, quadros de  dor crônica, problemas do sono, dentre várias outras situações em saúde. E isso, sem falar no seu enorme  potencial como instrumento de saúde preventiva, sendo um método de boa eficácia, baixíssimo custo e  quase que isento de efeitos colaterais. 

Ainda assim, mesmo diante de tantas vantagens, várias pessoas acabam não conseguindo meditar  regularmente. Em nossos workshops, após o ensino da técnica, sempre recomendamos que o aluno  pratique diariamente, em casa, a partir de então. No entanto, ao buscarmos notícias dos alunos por cerca de  3 anos, percebemos que cerca de 15% dos indivíduos não tem um contato tão satisfatório com a meditação  e acabam não meditando nunca mais. Outra parcela, em torno de 50%, pratica eventualmente, de forma  bem irregular, às vezes pára por alguns períodos (meses, semanas ou anos), e depois acaba meditando com  pouca regularidade. Uns 30% meditam com alguma frequência, de forma irregular, como novo hábito de  vida. Finalmente, temos os 15% finais, que parecem que nasceram para a meditação, praticando desde o dia  do workshop até onde conseguimos obter alguma notícia deles, talvez “para sempre”. 

Diante desse comportamento heterogêneo, frente à prática da meditação, passamos a tentar perceber quais  são os tipos comportamentais dos aprendizes que costumam desistir da meditação, e aqui listamos alguns  deles. 

1) “Viciados em adrenalina” _ Estes representam aqueles 15% que nunca conseguem meditar, e para esses  não há uma solução a curto prazo. São pessoas habituadas (e viciadas) em regime de “alarme contínuo”,  que gostam de trabalhar sob pressão, não suportam relaxar e que, geralmente, mal conseguem sentar para  ouvir uma explicação sobre como meditar. Para esses, é necessários iniciar-se com uma mudança de hábitos  de vida, que propicie uma mínima desaceleração, pois mesmo quando meditam uma vez ou outra  (geralmente com técnicas ativas em workshops), depois não mais conseguirão parar para meditar  novamente. 

2) “Inovadores de técnicas” _ Costumam inventar novas técnicas, ou variações de técnicas, para ver se a  meditação fica mais divertida, ou porque acham que, por alguma razão, essa variante técnica é melhor do  que aquela que lhe foi ensinada. Com isso, desprezam as décadas, ou séculos, de desenvolvimento das  técnicas, para que se conhecesse sua eficácia. Recomendamos, a eles, não alterar ou fazer adaptações às  técnicas já existentes, ou às técnicas que lhe foram ensinadas. Fazendo isso, eles não apenas deixarão de  obter os efeitos imaginados, como ainda poderão trazer riscos além da sua previsão, pois não será possível  antever os efeitos daquela variação técnica que eles acabaram de criar. Diante dos efeitos não obtidos, eles  desanimam, deixam de meditar e (pior ainda) às vezes dizem que a meditação não funciona bem. 

3) “Meditadores constantes” _ Esses geralmente ouviram falar que “meditar é uma maneira de viver”, e que  você medita a cada momento, em tudo que faz. Com isso, acreditam que a parada diária, para a aplicação  da técnica, é coisa absolutamente desnecessária. Deixam de praticar regularmente e, às vezes, sem efeitos  observados, descartam a meditação ou, pior, acham que estão meditando constantemente, e não usufruem  dos efeitos benéficos dessa técnica. 

4) “Cumpridores de metas” _ Tão acostumados estão a traçar metas e cumprir prazos que querem fazer o  mesmo com a meditação. Dessa maneira, meditam para conseguir fazer isso, ou obter aquilo. Essas metas  induzem à expectativa, cálculo de prazos, avaliação de progresso e, consequentemente… …à lógica. Fazem  intensos exercícios de lógica e, com isso sabotam a técnica (vide o texto “Relaxamento da lógica” nesta  coluna) e acabam deixando de meditar. Não adianta traçar objetivo. Medita-se por meditar, e os benefícios  vêm depois. Traçar objetivos impede o progresso da meditação. Mas se você não consegue viver sem  desafios, se quiser (mesmo) traçar um objetivo, planeje conseguir meditar diariamente, sem falhar, por 90  dias. Aí está um desafio que poderá – este sim – resultar em um efeito positivo.

5) “Medidores de progresso” _ Estes não traçam objetivo, mas caem em outra armadilha: querem monitorar  rigorosamente o próprio progresso. Por isso, ficam atentos aos efeitos psicofísicos que costumam ser  associados à meditação. Assim, diante do primeiro sinal de desaceleração, desistem e param de meditar.  Mas sabem eles que, na meditação, o progresso costuma se dar por “pulsos”. Às vezes, ficamos várias  semanas sem progressos aparentes para, de repente, avançarmos para um nível de relaxamente que ainda  sequer imaginávamos. O progresso é imprevisto, e muito variável. Cada um tem seu tempo; cada um tem  seus “pulsos”; e só a prática regular poderá nos levar a encontrá-los, no tempo que tiver que ser. 

6) “Falsos praticantes” _ Assim como os chamados “desportistas de fim-de-semana”, também existem os  “meditadores de fim-de-semana” Acreditam estes, que a prática eventual poderá trazer efeitos, como se a  meditação fosse agir como um passe de mágica. Decepcionados, acabam desistindo, sem saber que a  prática regular (junto com o domínio da técnica) é o maior de todos os segredos na meditação. O segredo  não está no estado, no efeito, na “viagem”, na “transcendência”. O maior dos segredos está primeiro em  compreender os princípios técnicos (especialmente “âncora” e “relaxamento da lógica”), e depois, na prática  regular. Todos os efeitos são apenas conseqüências da prática diária e bem estruturada. 

Esses são os grandes desistentes, que representam um importante percentual nos estudos sobre meditação.  Afinal, se a meditação possui um calcanhar de Aquiles, este seria o índice de desistência dos aprendizes,  que variam nos estudos entre 40 e 70%. Há muita desistência… Parece difícil assumir a responsabilidade  pelo seu próprio progresso… 

Com este pequeno texto espero contribuir para alertar os praticantes recentes, para os mais freqüentes  perigos, que acabam por tolher sua chance de gozar dos efeitos desta técnica excepcionalmente útil, que é a  meditação. 

by Roberto Cardoso

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